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AgTechs: as startups que estão mudando a Agropecuária

Entenda como as AgTechs, startups voltadas para o mercado Agro, estão inovando e mudando os processos de produção da cadeia

Atransformação digital tem sido uma temática constante em diversos setores. Ano após ano, vemos grandes empresas e entidades preocupadas com o impacto das tecnologias nos processos das cadeias e com o setor de Agropecuária não poderia ser diferente. O setor, que é responsável por aproximadamente 24% do PIB do país, teve um crescimento acumulado de 14,5% em 2017, segundo o IBGE e também está na corrida pela implementação de tecnologias. Assim como mostra o relatório Visão 2030: O Futuro da Agricultura Brasileira, publicado pela Embrapa, alguns fatores estão influenciando o uso de tecnologias no setor.

Um deles é o crescente ativismo dos consumidores brasileiros. O avanço das tecnologias e progressivo uso de redes sociais estão mudando a relação entre os produtores de alimentos e os consumidores ; com mais acesso a informações, é mais fácil compartilhar experiências e impressões sobre os produtos. Isso pode influenciar na qualidade e intensidade de produção, uma vez que um maior poder do consumidor pode afetar nas decisões da cadeia produtiva agroalimentar.

Além disso, o crescimento populacional, estimado em 33%, para aproximadamente 10 bilhões de pessoas, até 2050 também preocupa os produtores. Isso, pois a produção também terá de crescer. Estima-se que teremos que aumentar a produção de alimentos em mais de 70% se quisermos alcançar as expectativas desse crescimento da população global.

Agro 4.0: a necessidade de otimização de processos e aumento de produtividade

A maximização dos recursos e a necessidade de aumento na produtividade agropecuária trouxeram à tona a discussão sobre a agricultura 4.0 e como as tecnologias serão essenciais para o futuro do setor e, consequentemente, da humanidade. A integração e conexão das fazendas por meio de softwares, sistemas e equipamentos tecnológicos se tornaram a solução para otimizar as produções agropecuárias em todas as suas etapas.

Essas fazendas que produzem de forma inteligente, implementam tecnologias que permitem atuar com detalhes milimétricos em cada semente, animal, insumos, micronutrientes vegetais e animais e trabalham com a ideia de agricultura de precisão são conhecidas como fazendas inteligentes (em inglês, smart farming).

O relatório Smart Agriculture Market- Global Industry Analysis, Size, Share, Growth, Trends, and Forecast 2016 – 2025, divulgado pela Zion Market Research, mostra que o mercado de smart agriculture gerou US$ 5,098 milhões em 2016 e é esperado que alcance US$ 15,344 milhões até o final de 2025, crescendo mais do que 13% entre 2017 e 2025.

Para José Paulo Molin, Prof. e Coordenador do Laboratório de Agricultura de Precisão da Esalq-USP e Presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão (AsBraAP), um dos principais desafios enfrentados pelo setor, ao tentar se digitalizar, é a predominância da agricultura tradicional . Segundo ele, ainda não temos a maturidade suficiente para entendermos conceitos como agricultura de precisão, e a real necessidade de implementar as tecnologias.

“Os primórdios da agricultura de precisão são da virada do milênio para nós. É um tempo muito curto na história da agricultura para se dizer que virou a página. Veremos uma maior adoção de soluções tecnológicas a partir das propriedades maiores”, diz.

Molin afirma que há uma limitação na capacidade de investimento em tecnologias, não só pelo baixo nível de empreendedorismo, mas também pela capacidade financeira da agricultura. A solução para isso está na multidisciplinaridade do profissional atuante no setor. “No futuro, as atividades da agricultura de precisão e todos seus derivados serão conduzidas por uma equipe, não por um indivíduo.”

Desafios de integração e a necessidade de investimentos

É por entender justamente essa necessidade de incentivar o setor que vemos empresas como a Fundepag, especializada na gestão de negócios no agronegócio brasileiro, contribuindo de forma positiva no incentivo de inovação do setor. Com a missão de fomentar as relações entre a pesquisa científica e tecnológica e a sociedade, já promoveu a execução de mais de 6000 projetos de pesquisa aplicada, apoiados por 1000 eventos focados na transferência de tecnologias e com a parceria entre instituições públicas de P,D&I com mais de 2500 clientes.

Só em 2018 foram mais de 30 novas tecnologias disponibilizadas para o agronegócio. A Fundepag oferece apoio administrativo, financeiro e tático e dá suporte a projetos que preveem inovação, com ou sem propriedade intelectual. Segundo Álvaro Duarte, presidente da Fundepag, é preciso que as instituições públicas de P,D&I repensem suas finalidades para atender um mundo muito mais dinâmico, introduzam indicadores e metas para a valoração, avaliem suas atividades e adotem modelos gerenciais mais flexíveis e adaptáveis às necessidades sociais e de mercado.

Além disso, ele acredita que, no caso das empresas e entidades setoriais, é o momento de participar ativamente da produção tecnológica do Brasil, por meio de investimentos internos em P&D e, principalmente, com a ampliação das parcerias com o capital humano de alto nível das instituições públicas ou privadas.

“Em todas as circunstâncias, são fundamentais a mudança de hábitos, o fomento a ambientes para inovação e a catalisação das interações por meio das fundações de apoio, como a Fundepag”, diz. Duarte também acredita que as startups em conjunto com as instituições de pesquisa são o principal mecanismo para a geração de inovações.

Ele ainda aponta que há diversas oportunidades de negócio no setor, como a utilização de biotecnologia e nanotecnologia em produtos e insumos agrícolas, a utilização de impressoras 3D, aproveitamento de produtos dos oceanos, inovações para rastreabilidade de cadeias produtivas, entre outros.

Um cenário de mudanças no mercado agro

Ao mesmo tempo, vemos grandes empresas do setor de Agro empenhadas em entender de que forma as tecnologias poderiam ser aplicadas em seus processos agrícolas e pecuários. Um exemplo é a Mosaic Fertilizantes, que tem tido a ampliação de produtos como foco de inovação e procura incentivar os produtores a usarem soluções que possam fazê-los tomar melhores decisões e aumentar a produtividade.

A empresa tem utilizado tecnologias como IoT e inteligência artificial e buscado soluções com o objetivo de se tornarem mais eficientes e melhorarem o relacionamento que tem com seus clientes. De acordo com Christian Pereira, Diretor de Produtos Premium da Mosaic Fertilizantes, a importância da digitalização do setor se dá, sobretudo, para melhorar a gestão no dia a dia por meio de uma tomada de decisões mais assertiva.

“As ferramentas digitais podem ajudar os produtores a aumentarem suas receitas, suas produções, otimizar seus recursos e custos, além de aumentar a rentabilidade”, afirma. Segundo ele, há muitos fatores e variáveis incontroláveis que prejudicam os produtores diariamente, como a previsibilidade de microclimas. Ainda, para ele, as startups têm um papel importantíssimo nesse cenário.

“Há cinco anos não víamos a grande massa de startups apresentando soluções para o setor de Agro como vemos hoje e isso é extremamente positivo. É preciso incentivar as parcerias estratégicas de digitalização interna por meio de startups, pois essa é a única maneira de estar a par sobre as transformações constantes”, afirma.

Segundo ele, o Brasil está um pouco atrás de outros mercados, como o dos Estados Unidos, pois ainda enfrentamos barreiras estruturais, como a conectividade, citada anteriormente . Entretanto, ele é otimista. “No Brasil já temos startups robustas. Precisamos demonstrar de maneira mais eficaz o valor que as novas tecnologias podem oferecer aos produtores. Não é questão de as tecnologias serem caras de adquirir; é uma questão de perceber o valor”, continua.

O crescimento de importância das AgTechs

Assim como Pereira comentou, as AgTechs, definidas pelo CB Insights como startups que usam uma série de tecnologias que aumentam a produção e eficiência agrícola durante toda a cadeia de valor do setor de agricultura, que vai desde a produção da semente até o processamento de alimentos , têm tido um papel importante neste cenário de transformação das fazendas tradicionais em fazendas inteligentes. Alguns dos principais benefícios na utilização das AgTechs no campo, levantados pelo CB Insights, são:

  • Entendimento dos inputs gerados pelos equipamentos;
  • Aumento a eficiência por meio de analytics avançados;
  • Gerenciamento das operações de forma holística e científica.

Entendendo esses e outros benefícios que as AgTechs têm, muitas fazendas americanas têm implementado serviços de startups na produção. Segundo dados da USDA, de 2016, 48% das fazendas de milho dos Estados Unidos usaram AgTechs para monitoramento de produção, 29% de sistemas de orientação, 25% de mapas de produção, 19% de GPS de solo e 19% de taxas variáveis.

As AgTechs têm sido muito notadas por grandes empresas do setor de Agro. De acordo com o CB Insights, 2017 foi o ano recorde de investimento em AgTechs, com US$ 437 milhões investidos (94,2% a mais do que em 2016) em 62 deals (3,3% a mais) . Uma das principais negociações foi a compra da Climate Corporation, em 2013, pela Monsanto, por quase US$ 1 bilhão. O CB Insights estima que esse tenha sido o estopim para os investimentos em AgTechs nos Estados Unidos. Em 2014 o setor de AgTech recebeu investimentos da ordem de US$ 2,36 bilhões, envolvendo 264 acordos.

Arte com informações sobre investimentos realizados em AgTechs em 2017.

Esse valor é superior ao de mercados bem badalados, como o de fintechs (tecnologia para o sistema financeiro), com US$ 2,1 bilhões, e de “tecnologia limpas”, de US$ 2 bilhões. Outro exemplo interessante do relacionamento de corporações com AgTechs é a parceria entre a Monsanto e Atomwise, que colaboraram para pesquisar a relação entre a área de inteligência artificial e o setor de Agro. A proposta era acelerar descobertas e o desenvolvimento de novos produtos para a proteção de cultivos, a partir do uso dessa tecnologia.

Por meio de sistemas cognitivos de computação e de algoritmos de aprendizagem, a Atomwise pode avaliar milhões de moléculas da Monsanto, descobrindo quais teriam potencial de mercado. A Syngenta, a John Deere, a DuPont e a AgJunction são outras empresas que entram na lista das que mais investiram em AgTechs recentemente. Atualmente a Kleiner Perkins é líder em investimento em AgTechs, com sete investimentos.

No Brasil, temos exemplos como a beneficiadora catarinense de arroz e feijão Urbano Agroindustrial, que testou uma ferramenta digital de monitoramento e controle do volume de grãos em uma de suas unidades de armazenagem. O projeto exclusivo foi feito pela desenvolvedora de softwares Senior, de Blumenau (SC), com base na tecnologia Watson, a interface de inteligência artificial da americana IBM.

A partir de comandos de voz ou texto, utilizando-se de um computador ou smartphone, é possível ter relatórios em tempo real da capacidade do silo. A ideia da Senior é multiplicar projetos como esse nas fazendas do País, envolvendo a internet das coisas e a inteligência artificial.

Uma análise sobre o mercado agropecuário brasileiro

Para entender o cenário de digitalização no setor agropecuário e a atuação das AgTechs no mercado brasileiro, este estudo teve como foco entender de que forma as tecnologias estão sendo utilizadas nos processos que envolvem as produções, desde a obtenção de crédito rural e novas formas de compra de equipamentos tecnológicos, insumos e ferramentas, até a sustentabilidade na pós-colheita, passando por coleta de dados, análise e integração de informações em plataformas de gestão, aplicação inteligente por meio de robotização e automação, rastreabilidade dos produtos e novas formas de vendas dos produtos.

A digitalização no campo é uma das primeiras etapas para a construção de uma fazenda inteligente. Para que os produtores possam adquirir as máquinas, dispositivos e aparelhos que serão responsáveis principalmente pela captação dos dados do campo, precisam de acessos facilitados aos créditos rurais.

Isso, pois apesar de as concessões estarem aumentando gradativamente, muitos apresentam dificuldades com as análises criteriosas. Assim, ferramentas e plataformas de desintermediação dos processos se tornam formas alternativas para eles. Obtidos os créditos, uma dúvida que surge é: quais aparelhos comprar? Duas maneiras que os produtores conseguem captar dados é por meio de dispositivos IoT e drones. Somente os dispositivos IoT terão um impacto bilionário no setor.

A Business Insider prevê que haverá 75 milhões de dispositivos agrícolas IoT até 2020, com crescimento anual de 20%. Além disso, o mercado de smart agriculture (que consiste na aplicação de soluções de IoT na agropecuária) triplicará até 2025, alcançando US$ 15,3 bilhões . Já os drones, que podem além de captar imagens, também ser utilizados para pulverização de produtos químicos no campo, também vêm chamando a atenção dos produtores.

Ainda de acordo com a Business Insider, o valor de mercado das aplicações de drones em todas as indústrias é de US$ 127 bilhões. No setor de Agro, o valor é de US$ 32,4 bilhões, segundo o levantamento Clarity from above, da PwC.

A partir da obtenção dos dados do campo, a próxima etapa é organizar essas informações de modo que os produtores possam analisar de forma holística e tirar insights específicos para cada atividade. Isso porque se torna impraticável avaliar cada dado manualmente. A Business Insider estima que, até 2020, mais de 500 mil pontos de dados serão gerados por fazenda em um dia.

Até 2034 esse número poderá chegar a quatro milhões de pontos de dados. Assim, plataformas de gestão, como a Agrosmart, a Inceres e a SciCrop, tornam-se aliadas dos produtores. A importância da utilização delas se dá pela maior visão sobre aquilo que está acontecendo em cada parte da fazenda. A partir dos insights rápidos e precisos dados pelas plataformas, os produtores conseguem pensar em maneiras de automatizar determinadas atividades, para que lhes sobre mais tempo para refletir sobre questões mais relevantes no dia a dia.

A robotização e automação dos processos agropecuários, inclusive, é outra tendência que vem crescendo no setor. Estima-se que o valor de mercado de robótica na Agropecuária chegará a US$ 16,3 bilhões até 2020, quase o dobro registrado em 2013, com US$ 817 milhões, de acordo com a ResearchMoz. Projetos, como o Hands Free Hectare, mostram que é, de fato, possível plantar e colher muitas commodities com automação de maquinários, apesar da complexidade dos processos.

Além disso, com os dados, é possível aplicar um conceito cada vez mais essencial atualmente, que é o de rastreabilidade. Isso, pois, podem ser uma maneira de garantir a origem dos produtos, seja para uma necessidade de recall ou pelo maior interesse dos consumidores sobre a procedência dos alimentos que compram.

Por último, além de utilizar novas ferramentas para obtenção de crédito, captar dados por meio de máquinas e dispositivos, automatizar e rastrear seus produtos, as fazendas inteligentes também podem usufruir de tecnologias para tornar o processo de vendas mais rápidos e fáceis. As novas formas de vendas, como o farm to table, aproximam pequenos e médios produtores dos consumidores. Os agricultores familiares são responsáveis pela produção de 70% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo.

De acordo com levantamento feito pelo portal Governo do Brasil, a agricultura familiar no Brasil tem um faturamento anual de US$ 55,2 milhões. Além disso, a sustentabilidade também é outra questão que é importante para as fazendas inteligentes, pois podem reduzir os impactos gerado durante toda a cadeia, retroalimentando a indústria.

É o caso das fazendas verticais e urbanas, que são capazes de atuar sobre a necessidade de reaproveitamento de espaços ociosos para plantações agrícolas e aumento de produtividade. Isso, pois, 25% de todas as terras agrícolas são classificadas como altamente degradadas e 44% está moderadamente degradada, segundo o relatório Visão 2030: O Futuro da Agricultura Brasileira, publicado pela Embrapa.

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