Investir em govtechs: uma opção para reformar o Estado
Artigos

Investir em govtechs: uma opção para reformar o Estado sem quebrar as paredes

Como as govtechs podem ser um excelente investimento e, ao mesmo tempo, são capazes de beneficiar todo o ambiente de negócios reduzindo a burocracia e aumentando eficiência da gestão pública

ARTIGO DE OPINIÃO

Por: Lucas Prado Bacharel em Direito, servidor público, Embaixador de Inovação Cívica da Open Knowledge Brasil e Co-Founder da Meritocracity

O surgimento de startups do segmento de govtechs é provavelmente uma das tendências mais promissoras no cenário da inovação pública nos últimos anos, isso porque elas têm um potencial de impactar positivamente toda a cadeia de valor, propiciando um ambiente de negócios mais produtivo, mais competitivo e menos burocrático, beneficiando assim todo o mercado, inclusive o próprio ecossistema de startups.

De 2003 a 2019, as empresas marcadas com “govtech” no Crunchbase levantaram US$ 2,8 bilhões em investimentos. Cerca de dois terços desse montante foram capitalizados nos últimos cinco anos. No Reino Unido, por exemplo, foi instituído um fundo de mais US$ 24 milhões para investimentos em govtechs

Apesar de todo o otimismo em torno das govtechs – que segundo especialistas podem movimentar o mercado mais que as fintechs e proptechs até 2025 – os investidores de venture capital no Brasil parecem ainda não estar confiantes e dispostos a correr riscos ou talvez ainda não tenham percebido a janela de oportunidades que as startups focadas em governos podem representar.

Em todo o mundo os governos precisam encontrar formas de obter melhores resultados, aumentar os índices de confiança e oferecer uma melhor experiência para os cidadãos – a um custo que seja razoável e sustentável. Um estudo do McKinsey Center for Government (MCG) apontou que o aumento da produtividade dos governos do mundo poderiam ter economizado até US$ 3,5 trilhões por ano, nos últimos 5 anos, o equivalente a todo o rombo fiscal global. 

Consequentemente, com o equilíbrio das contas públicas, os países poderiam optar por investir no aumento da qualidade dos principais serviços oferecidos ao cidadão, como saúde, educação, mobilidade urbana e segurança, elevando a expectativa de vida, sem gastos per capita adicionais.

Dito isso, a demanda crescente da população pela melhoria da qualidade dos serviços públicos, por mais transparência e por uma maior eficiência da máquina pública, faz com que as govtechs estejam cada vez mais alinhadas ao interesse público, apesar do risco inerente aos seus modelos de negócio. Além disso, as tecnologias ligadas às smart cities, como inteligência artificial e blockchain, tendem a criar um oceano azul para as govtechs. Problemas não faltam para serem solucionados no setor público, mas ainda faltam investidores dispostos a apostar nos futuros unicórnios do segmento de govtechs.

Infelizmente, como observa o Professor Gilberto Sarfati, da FGV: “Os estágios de investimento no Brasil não necessariamente correspondem aos de países mais desenvolvidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, investidores-anjo e aceleradoras aportam recursos em estágios muito iniciais do negócio. […] Até cerca de três anos, investidores-anjo e aceleradoras suportavam as fases de Ideação e Pré-Seed. No entanto, devido ao altíssimo risco desses estágios iniciais, os investidores profissionais moveram-se para a etapa Seed. Isso significa que os empreendedores nas fases de Ideação e de Pré-Seed são, hoje, suportados pelas incubadoras, geralmente ligadas a universidades e ao poder público local.” 

Se, no ecossistema brasileiro já é difícil para startups de outros segmentos conseguir aportes durante a fase inicial de ideação – tendo de arcar sozinhas com todos os riscos e suportar longos períodos de bootstrapping até validarem seus negócios –, que dizer para as govtechs

Neste cenário de carência de investimentos, o poder público acaba assumindo o papel de grande patrocinador de startups earlystage, por meio de programas como o FINEP, Centelha, BNDES Garagem, PitchGov, IdeiaGov e Laboratórios de Inovação. O governo acaba se tornando investidor e cliente ao mesmo tempo para as govtechs. Todavia, parece contraditório defender um Estado enxuto, se utilizando de recursos públicos para subsidiar o risco tecnológico de startups.

Mesmo com todas as barreiras de entrada, no que diz respeito à dificuldade de testar, validar seus produtos e finalizar suas vendas por meio do regime de licitações, algumas govtechs brasileiras têm conseguido obter sucesso e se posicionar neste mercado, provando que é possível desenvolver modelos de negócios escaláveis e lucrativos tendo o governo como cliente (B2G). Em recente estudo do CAF, o Brasil aparece em 2º lugar da América Latina no índice de govtechs.

Os investidores anjos e fundos de venture capital brasileiros precisam começar a contabilizar o Custo Brasil, que em 2019 chegou a R$1,5 trilhão, segundo o Ministério da Economia. Além disso, os gastos públicos no Brasil somam o equivalente à 42,2% do PIB, segundo o BID. Ou seja: quando deixam de investir em govtechs, os players do mercado estão perdendo duas vezes; porque, via de regra, os governos são como grandes clientes que gastam muito e gastam mal. Uma opção seria seguir o exemplo de Singapura e sustentar a concepção do governo como plataforma, investindo nas startups como protagonistas da transformação digital e da inovação no setor público.

Nos EUA, o financiamento para GovTechs cresceu 300% desde 2012, atingindo US$ 336 milhões em 2016. Na Europa estima-se que existam aproximadamente 2 mil govtechs em operação. O presidente francês Emmanuel Macron acumulou € 5 bilhões (US$ 5,5 bilhões) de capitalistas de risco e gestores de ativos para investir em startups do setor público nos próximos três anos, com o objetivo de tornar a França o principal ecossistema da Europa. Outros países, como Israel, Grã-Bretanha, Dinamarca, Portugal e Polônia, também têm apostado no mercado de govtechs

Diante do atual cenário de instabilidade política e econômica que o país atravessa, a Reforma Administrativa, apesar de necessária, tem se tornado cada vez mais distante e improvável. Para usar uma metáfora: às vezes é mais fácil usar uma canaleta do que quebrar as paredes. No caso das govtechs, as “canaletas” do Estado podem ter um design hightech, elegante, sofisticado e ainda ser uma opção altamente rentável para investidores. 

A aversão de investidores a riscos como a burocracia, corrupção, fisiologismo e disputas políticas é plausível, mas pode ser superada com uma nova cultura de inovação no setor público. As govtechs podem ser agentes catalisadores desse processo e ao mesmo tempo gerar elevado retorno de investimentos, mas precisam de “patience capital”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Botão Voltar ao topo