A necessidade de transformação cultural do ensino brasileiro
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A necessidade de transformação cultural no ensino

A importância de se difundir uma transformação cultural nas escolas em prol da digitalização

Quando analisamos os obstáculos a serem superados para uma maior inserção da tecnologia nas escolas do país, além de questões de infraestrutura, acessibilidade e de capacitação técnica, precisamos também levar em conta um aspecto mais subjetivo, que envolve a transformação cultural dos players que formam o ambiente educacional brasileiro. 

Em um estudo macro da Consultoria Mckinsey sobre transformação digital no mercado, por exemplo, ¼ das companhias entrevistadas apontam uma cultura avessa a riscos como um dos principais entraves para a digitalização nas empresas.

No mesmo levantamento, 20% das empresas apontam que a falta de entendimento da cultura organizacional é outro impeditivo para o sucesso digital.

Para a Diretora Acadêmica e de Inovação do Grupo Adtalem Educacional, Maíra Habimorad, tais obstáculos também precisam ser superados no mercado de educação, o qual conta ainda com o elemento cultural das famílias e os desafios da difusão de metodologias de ensino inovadoras na sociedade brasileira.  

“Pensando no ensino básico, há uma estagnação significativa. Não se trata de afirmar que as pessoas não mudam porque elas não querem ou porque não veem valor na inovação, mas porque o modelo de ensino atual no país vive um longo período de inércia. No ensino básico, por exemplo, as escolas não têm sistema concorrente. Além disso, o apetite para risco das famílias é muito pequeno porque ninguém quer errar com a educação dos filhos”, explica Maíra Habimorad. 

Os caminhos para a transformação cultural do ensino brasileiro

Um dos caminhos para a superação destes obstáculos e, consequentemente, para a construção de uma cultura digital na educação pode se dar por meio de parcerias entre universidades, escolas e startups. Para tanto, Maíra acredita que estas empresas precisam ser capazes de atender dois perfis diferenciados de instituições de ensino. 

“Um dos perfis são escolas que já entenderam a importância da transformação digital, mas que ainda não possuem uma estratégia organizada de inovação. Atender este grupo é um desafio, pois o interesse existe, mas as coisas podem não evoluir por falta de maturidade da instituição. Outras instituições, como o próprio Grupo Adtalem, já estão em um cenário mais avançado de maturidade tecnológica. Nós já entendemos que o ambiente educacional global não é mais o mesmo, e já temos uma estratégia para a transformação digital. O desafio de nos atender, por sua vez, é que sabemos exatamente o que queremos e soluções de prateleira que não levem em consideração necessidades pedagógicas dificilmente irão se inserir em instituições com visão digital mais madura”, explica Maíra.

Mas uma transformação cultural que leve em conta o cenário de digitalização da educação e, em última instância, do mercado global como um todo, precisa ir além dos desafios organizacionais internos das empresas, universidades e instituições. 

Veja o que Roseli Moreno, diretora educacional do Colégio Objetivo Maringá, pensa sobre a transformação cultural nas escolas

Buscamos desenvolver em nossa escola as habilidades exigidas no mundo contemporâneo, tais como a resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade e atuação em equipes. Saber lidar com a tecnologia se utilizando dessas habilidades é fundamental para o sucesso de nossos alunos. Por isso, inserimos esse ano em nosso PCA (Programa Cultural para Alunos) a parceria com a Happy Code.

Os alunos têm se mostrado muito receptivos às atividades ofertadas pela Happy, visto que a linguagem e a proposta se assemelham muito as rotinas dessa geração maker. Como em todo processo de ensino e aprendizagem, existem os alunos com maior ou menor facilidade, mas a metodologia STEAM, adotada pela Happy, facilita a transformação das dificuldades em oportunidades de superação de desafios.

Neste momento estamos introduzindo os alunos ao Letramento Digital, com as trilhas de aprendizagem voltada para o desenvolvimento de Games e Aplicativos em Nível Iniciante, para alunos do 6º ao 9º ano do fundamental II.

A inclusão tecnológica de grupos sociais minoritários

É fundamental refletirmos, por exemplo, sobre questões sociais, como a inclusão de mulheres, grupos minoritários e de camadas da população economicamente menos favorecidas no mercado digital e de tecnologia.

Analisando alguns dados, é relevante percebermos, por exemplo, que no campo da engenharia da computação, apenas 8% dos trabalhadores são negros, de acordo com dados do Ministério do Trabalho; por sua vez, apenas 28,8% da população brasileira mais pobre possui acesso à internet segundo levantamento do IBGE; finalmente, segundo a Brasscom, as mulheres ocupam apenas 37% das vagas de TI.

Certamente, as explicações para tais dados envolvem uma série de fatores, incluindo problemas de acessibilidade e da necessidade de transmissão de conhecimentos digitais no ensino do país, os quais já foram introduzidos neste estudo.

Dentro deste contexto, um processo de transformação cultural é fundamental para a construção de um ambiente digital verdadeiramente diverso e inclusivo.

Imagem apontando o número de trabalhadores afrodescendentes na área de engenharia da computação

O papel da educação

E este processo de abertura também passa pela educação. Não à toa, startups como a PrograMaria, que promove, de modo exclusivo, ações para a inclusão feminina no mercado de trabalho contemporâneo, vem ganhando destaque no ecossistema nacional de EdTechs. 

“A PrograMaria tem a missão de empoderar mulheres por meio da tecnologia e da programação. Trabalhamos ao lado de empresas que querem promover a diversidade e recrutar mais mulheres, realizando diversas atividades, como oficinas, palestras, debates e cursos de formação técnica para mulheres entrarem ou progredirem nesse universo. Por meio dessas experiências, as empresas não só fomentam a formação de mais mulheres, mas também conectam suas oportunidades de trabalho com essas profissionais, aprimorando também seu employer branding“, explica Iana Chan, Fundadora da PrograMaria.

Fundada em 2015, a PrograMaria já formou 4 turmas em seu curso Eu Progra{amo}, que aborda conceitos básicos de programação para a web. 

Outra iniciativa bastante positiva em prol da transformação cultural de escolas e da inclusão social no contexto da transformação digital é o NAVE (Núcleo Avançado em Educação), programa de ensino médio integrado ao profissional desenvolvido pelo Oi Futuro em parceria com as Secretarias de Estado de Educação do Rio de Janeiro e Pernambuco e que tem a CESAR School – escola de inovação de Recife-PE – como parceira estratégica.

Para Andrea Santos, Gerente de Projetos na Cesar SCHOOL, é fundamental, justamente, conectar a tecnologia aos desafios do ambiente no qual ela está inserida.

“Eu acredito que o mundo digital nos impõe dois principais desafios que, por sua vez, motivam a criação de uma nova cultura. De um lado, temos a preocupação de como a gente se porta, da segurança com dados, imagem e dos cuidados que temos de ter em um universo no qual, a todo momento, surgem novas descobertas. Além disso, quando pensamos em inovação, é importante que se preserve a cultura dos espaços em que a tecnologia está inserida. A inovação precisa estar contextualizada com as expectativas daquele público, daquela escola, daquela comunidade em que está inserida e ser vista como um meio, não como um fim em si mesma. Neste sentido, é preciso que as soluções estejam conectadas com o mundo real.”

O papel das startups e das empresas em prol da inclusão digital e da transformação cultural do país

Iniciativas como essas demonstram o poder de empresas e startups no processo de inclusão digital e de transformação cultural do ecossistema de tecnologia do país. Outras ações ainda podem ser mencionadas.

A Carta de Apoio à Diversidade, ao Respeito e à Inclusão de Pessoas LGBT+ nos Locais de Trabalho no Brasil, por exemplo, contou com a assinatura de empresas importantes inseridas no mercado digital nacional como IBM, Google, Uber, Oracle, LinkedIn e Microsoft.

Cesar Martins, cofundador e diretor de tecnologia da Happy Code, explica o que a edtech está fazendo em prol da transformação cultural no ensino brasileiro

A Happy Code começou em 2015, com a proposta de oferecer cursos de programação para crianças e adolescentes. Eu, particularmente, tive a oportunidade de ter contato com programação quando criança, algo que, para mim, foi muito construtivo, mudou minha forma de pensar, de resolver problemas, ampliou meu raciocínio crítico. Neste sentido, uma de nossas missões é trabalhar para a expansão do letramento digital no Brasil.

Hoje nós estamos com mais de 130 escolas no Brasil, além de termos presença também em Portugal e Angola. Atualmente, nosso público é tanto B2C – com os estudantes procurando nossos cursos diretamente -, quanto B2B, por meio de parcerias que fechamos com escolas e instituições de ensino em todo o país. 

O objetivo principal da Happy consiste em promover as habilidades mais ligadas ao ser humano, utilizando a tecnologia como um meio para o desenvolvimento desses skills tão essenciais para o futuro.

O BlackRocks, por sua vez, vem obtendo sucesso na promoção do empreendedorismo tecnológico e do crescimento econômico da população negra brasileira. 

Por fim, é importante notar que, seja do ponto de vista da quebra de bloqueios culturais internos das organizações quanto à inovação ou da superação de paradigmas a favor da inclusão de diferentes culturas no ecossistema digital brasileiro, o fato é que este processo de transformação passa, certamente, pela educação que, por sua vez, deve estar ancorada – conforme exposto na Base Nacional Comum Curricular – tanto no fortalecimento de uma cultura digital, quanto na empatia, no diálogo, na resolução de conflitos e na cooperação, “fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos.”

Saiba o que os profissionais de grandes empresas e especialistas estão falando sobre o tema em entrevistas completas aqui

barkus

A Barkus é uma startup brasileira fundada em 2016 que visa promover uma cultura empreendedora e de educação financeira entre alunos do 6º ano ao Ensino Médio. A edtech já participou do programa de aceleração Shell Iniciativa Jovem.

Juntos Campus

Com foco na promoção de cursos corporativos e no aprendizado de habilidades não-cognitivas nas empresas, a Juntos Campus conta também com uma solução para coletar dados sobre o aprendizado dos colaboradores. Participou do programa de aceleração da Oracle em 2018.

A Konexio tem como principal objetivo vencer as barreiras da exclusão digital pelo mundo e promover a diversidade no universo da tecnologia. A startup francesa conta com programas de ensino para refugiados e imigrantes, sendo acelerada pela incubadora Station F.

admitsee

Fundada nos EUA em 2014, a AdmitSee fornece um banco de dados amplo para que os estudantes tomem decisões mais assertivas e possam ter mais chances de serem selecionados em programas universitários. Já recebeu mais de US$ 1,9 milhões em investimentos.

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